Modelos de Neg?cios Circulares: entrevista com Diego Iritani/ Atualiz:24.04.19

25 de abril de 2019

A criação de novos modelos de negócios circulares foi uma das questões mais citadas na pesquisa que fizemos no ano passado com nossos leitores, investigando os desafios para a transição rumo à economia circular.  Abaixo algumas falas que ilustram bem o assunto:

A Cilene disse: “Um dos grandes desafios que vejo para a implementação da economia circular é conseguir soluções que sejam financeiramente competitivas com as soluções existentes pela abordagem linear”. E, segundo a Daniela, “um dos maiores desafios é convencer as empresas, ou quem desenvolve qualquer tipo de produto ou serviço, a investir num sistema circular. (…) A dificuldade encontra-se em explicar sobre economia circular na língua do empresário, que, normalmente, quer saber o que ele vai lucrar com essa mudança”.

Momento de transição

De acordo com a CNI (Confederação Nacional das Indústrias), a gestão da sustentabilidade já aparece na agenda estratégica de muitas empresas. Isso graças ao alerta de muitos os organismos internacionais e nacionais para a necessidade de mudarmos a demanda por bens de consumo, pois a atual maneira tende a esgotar nossas reservas de recursos naturais em curto e longo prazo, além de poluir os nossos ecossistemas. Apesar de isso apontar para uma grande crise ambiental, o quadro atual tem se tornado uma oportunidade para repensar modelos de negócio e adotar uma postura circular.

Mas a verdade é que ainda vivemos uma transição do pensamento linear para o circular. Ainda que existam empresas motivadas por um pensamento sustentável, elas ainda não têm a circularidade como objetivo. E não é de se espantar que surjam desafios relacionados aos negócios: demanda, alto custo, novos modelos de negócio e falta de investimentos foram alguns dos assuntos levantados na nossa pesquisa.

Especialista em modelos de negócios circulares fala sobre desafios

Para falar sobre esse assunto, entrevistamos Diego Iritani, que é doutor em Engenharia de Produção pela USP (Universidade de São Paulo), fundador da Upcycle, uma start-up de consultoria em economia circular, e pesquisador associado ao Centro de Inovação em Economia Circular da USP (CIEC-USP).

Diego Iritani em palestra sobre desafios em modelos de negócios circulares

Diego respondeu algumas dúvidas relacionadas aos modelos de negócios circulares. Citou, por exemplo, o custo para mudar o modelo de negócio existente como um dos desafios mais recorrentes. Veja abaixo um pouco do que conversamos.

1) Na pesquisa que fizemos percebemos que as pessoas acreditam que existe um custo alto tanto para implementar modelos de negócios circulares, quanto para transformar um modelo linear em um modelo circular. O que você acha?

“Os modelos de negócios circulares normalmente têm um custo maior, principalmente se a empresa já está estabelecida. Primeiro porque ela tem de rever toda a estrutura: de processos, atividades, equipe. É preciso alocar novos recursos para operar esse novo modelo de negócio.

Existem também fragilidades na cadeia de produtos circulares. Pensando em um modelo de negócio que recupera resíduos, por exemplo, muitas vezes sofre com questões de volume, de regularidade, e questões relacionadas aos custos de logística reversa. Então, são vários entraves que existem para alguns modelos de negócios circulares.

E fazendo o paralelo com esse custo, muitas empresas ainda têm o mindset de custo, ou seja, se tem um custo muito grande, ela acaba não investindo nessas iniciativas e parte para um caminho mais simples de redução de custos, ou seja, continuar trabalhando com projetos de ecoeficiência, melhoria de processos, mas não acabam investindo em economia circular”

2) Então o alto custo seria uma barreira?

“Os custos existem, mas há formas de superar essas barreiras. É preciso investir em inovação. As empresas mais inovadoras, que entendem que apesar do custo maior elas podem agregar maior valor e ter um retorno financeiro que atinja um nicho que pague mais por aquele produto. Além disso, existe o que o especialista chama de valores intangíveis, que muitas empresas acabam não contabilizando. O fortalecimento da marca, por exemplo. São outros ganhos. E se você olhar só para os custos, muitas vocês você acaba matando a inovação. Empresa que olha só para custo, não inova.

Isso de não inovar pode acabar matando o seu negócio. Então, se você não inovar, olhar só para custos, existe um risco de em uns cincos anos seu negócio estar fechado porque você deixou de inovar”

3) Outro desafio seria a transformação de negócios em plena operação para modelos de negócios circulares. É possível alcançar esse objetivo?

“É, esse é um desafio para qualquer empresa, mas é um pouco maior para as grandes empresas. Porque não é simplesmente “tive uma ideia, vou colocar em prática”. Normalmente quem trabalha em uma grande empresa tem uma rotina de atividades com pouco tempo para mudanças e inovações. Existe uma série de questões logísticas, existem muitas pessoas envolvidas, muitos níveis hierárquicos e diversas áreas, então para investir em uma ideia, é necessária uma mudança. E com as pessoas tendo uma rotina de atividades, sobra pouco tempo para mudar, inovar”

4) Qual seria a solução circular para grandes empresas?

“O que algumas empresas grandes têm feito e funciona bem é trabalhar em parceria com start-ups ou lançar spin-offs, como no caso da Embraco que lançou a Nat.Genius e da Sinctronics, que veio da HP. Por que esse modelo pode ser interessante? Porque além de você não parar seu modelo atual de negócio e investir em inovação para o modelo, essas spin-offs já nascem aceleradas, elas já têm ali uma série de base de contatos das grandes empresas de parcerias que podem facilitar o lançamento desse novo modelo de negócio, até validar isso sem correr muitos riscos. É um risco bem menor do que o de você mudar de uma vez todo seu modelo de negócio. Então é um formato interessante para grandes empresas.”

5) Para pequenas empresas, as soluções são mais simples?

“Algumas  startups ou empresas novas já nasceram com o DNA da sustentabilidade e economia circular, já vão com foco, desenvolvem parcerias para  trabalhar com cadeias, em redes, para implementar modelos de negócios circulares. Claro que uma empresa, mesmo que pequena, que não nasceu já com esse pensamento circular, não está perdida. É possível começar com pequenos projetos pilotos, que é uma forma mais tradicional.

Por exemplo, vou trabalhar com minha cadeia de suprimentos, ali vou fazer uma cadeia reversa. Começa a validar com pequenos projetos, com novos parceiros. Então começa com esses projetos pilotos, entra depois em uma fase de validação, “ok consegui operar isso, existe uma demanda de mercado, então posso lançar por meio de um produto”. E você começa aí a escalar um pouco mais, “ah, vou lançar uma linha de produtos ou um novo serviço”. Por exemplo, a “Alhma” do grupo Reserva funciona com essa lógica. Eles pegaram uma ideia e testaram, depois de a ideia funcionar, eles passaram a trabalhar a marca. Tudo isso sem abrir mão do modelo já existente da reserva. 

Um outro desafio grande, encontrar parceiros. Isso porque em projetos de economia circular é praticamente mandatório trabalhar em rede, com parceiros. Ninguém implementa um modelo de economia circular sozinho. Você tem de encontrar pessoas, por mais que seja business to business (B2B), você precisa do fator pessoa, a pessoa engajada em trabalhar nesse tipo de projeto para buscar inovação.”

6) Você pode dar exemplos de modelos de negócio circular ligados ao ciclo biológico?

Aqui no Brasil temos o caso interessante da Cbpak, que tem um viés de regeneração e busca de matérias-primas biodegradáveis. Eles desenvolvem copos descartáveis a partir de fécula de mandioca, substituindo os copos plásticos. E eles também têm um modelo inovador de vender como um serviço, para empresas áreas, por exemplo. Então, o que acontece é que a empresa paga pelo contrato de serviço, eles oferecem esses copos, depois vão e coletam esses copos e destinam para parceiros que fazem a compostagem. Depois você não tem o copo indo para um aterro, por exemplo, ele é usado para regenerar uma quantidade de solo, gerando impacto positivo.

Tem também o caso da Farfarm. É uma empresa americana que desenvolve fibras regenerativas com parceiros em agroflorestas no Brasil. Eles têm duas bases, uma administrativa nos estados unidos e aqui no Brasil, no Pará eles desenvolvem essas agroflorestas a partir de técnicas de permacultura para poder fazer fibra a partir de juta, abacaxi, banana e aí você tem matéria prima para o setor têxtil e de moda.”

 

7) Mas e os fornecedores?

“Esse é um outro desafio grande, encontrar parceiros. Isso porque em projetos de economia circular é praticamente mandatório trabalhar em rede, com parceiros. Ninguém implementa um modelo de economia circular sozinho. Você tem de encontrar pessoas, por mais que seja business to business (B2B), você precisa do fator pessoa, a pessoa engajada em trabalhar nesse tipo de projeto para buscar inovação.”

8) E isso tudo está ligado ao entendimento do mercado?

“Com certeza! Nada disso seria possível sem o entendimento do mercado. Fator essencial para qualquer empreendimento dar certo, o mercado ainda não conhece profundamente os benefícios dos modelos de negócios circulares. Tenho esse viés mais técnico de olhar o fluxo de materiais, reciclagem, etc. Mas no mundo de negócios você precisa ter uma visão de negócio mesmo. Não adianta ter um olhar só técnico.

Ok, você tem um produto biodegradável, sustentável. Mas e o mercado? Como eu vou lançar isso? O segredo para o desenvolvimento dos produtos ou serviços é trabalhar em conjunto. Tudo precisa ser bem desenhado para não acontecer de uma solução legal não atingir seu público, você não engajar esse público. Tudo isso precisa estar bem alinhado. Enfim, você acaba trabalhando com diversas áreas. Trabalha com design, marketing, a parte mais técnica que é engenharia, em geral”.

9)  E a demanda? Esse foi outro desafio que surgiu. A demanda por produtos circulares, como na própria indústria têxtil, ainda é muito baixa?

“Sim, sim. Bom, esse é um assunto complexo por entrar em outras questões no Brasil. Vou usar o exemplo da Farfarm de novo. Eles estão em Nova York, os Estados Unidos não são um grande modelo de sustentabilidade, mas a percepção de valor lá é outra. Segundo a empresa, é muito mais fácil conseguir vender um produto lá do que aqui. Aqui no Brasil a procura ainda tá crescendo, é uma tendência, principalmente dos milleniums, geração z, eles tendem a consumir aquilo em que eles acreditam.

Outro fator crítico no Brasil é a distribuição de renda, tem muita gente desempregada, sem capacidade de compra. Hoje, as iniciativas sustentáveis são mais caras, elas atingem um público específico. É até um atrativo para quem desenvolve, porque ela pode receber mais por aquele produto. Mas é um desafio, por exemplo, para as grandes varejistas, ainda no setor têxtil, de conseguir implementar um produto sustentável e ser atrativo em termos de preço para atingir classes menos favorecidas.”

10)  Falando um pouco de investimento, que foi outro desafio ressaltado. Ainda é muito difícil ter investimentos na área de economia circular no Brasil e no mundo?

“Eu acredito que na Europa existem mais investimentos na área. Não só no setor privado, mas também no setor público. Eles têm políticas mais estruturadas e legislação mais avançada, além de uma mentalidade dos tomadores de decisão em abrir iniciativas, editais e investir em pesquisa e aceleração. No Brasil, não tem muito investimento do governo nesse sentido. O que existem são algumas aceleradoras com um viés mais social e sustentável.

Olhando, o cenário ainda não é positivo, não está no ideal, mas de cinco anos para cá, aumentou o interesse de investimento privado nesse tipo de iniciativa. Também existem alguns órgãos do governo começando a pensar no assunto, como a FINEP, que lançou em 2018 uma chamada pública para o setor de matérias primas de base, para projetos de economia circular. Está num estágio ainda inicial. Acho que o que ainda falta no Brasil é isso, editais específicos para atrair pessoas e empresas.”

11) E as políticas públicas?  

“Do ponto de vista ambiental o que temos no Brasil é uma política muito forte de comando e controle. Ou seja, faça senão eu vou te punir. E isso é lógico, necessário, precisamos ter regras e leis. Agora do ponto de vista de inovação, de incentivo, para tirar do papel, e aliás, a economia circular como inovação que eu acredito que seja o maior potencial de ganho dela, eu acredito que ainda estamos em estágio bem inicial.”

12) Qual seria o principal desafio na área de negócios?

“Eu acho que o principal desafio é o mindset. Isso não é só no mundo de negócios, acaba esbarrando em nós como pessoas, tanto cultural quanto no consumo. Existem muitas barreiras e o consumidor sempre tem alguma dor. Ou é muito caro, ou não está disponível no mercado. Aí você vai na indústria falar com quem faz o negócio. Aí ela fala que mercado não está interessado. Precisa mudar o mindsetmesmo, do consumidor, da indústria e do governo, com as políticas públicas.”

 

Ainda há muito a desenvolver no Brasil e no mundo para chegarmos ao “futuro circular”, mas os primeiros passos já estão sendo foram dados. Sabemos que são muitas as barreiras, inclusive para modelos de negócios circulares, mas existem soluções para pequenas, médias e grandes empresas que desejam sair na frente.

Acreditamos que uma das coisas mais importantes a se fazer para mudar o mindset, como observou o Diego, é falar sobre o assunto, e esperamos que a entrevista de hoje tenha ajudado a iluminar alguns dos desafios e oportunidades na área de novos modelos de negócios circulares.  

 

Fonte:.https://www.ideiacircular.com/modelos-de-negocios-circulares/